Nem às paredes confesso:
da idade da pedra aos muros electrónicos
texto e fotos de Álvaro Domingues
Primeiro andamento - contemplação
O Museu do Côa (para já…) é um edifício magnífico. Os seus projectistas, Camilo Rebelo e Tiago Pimentel souberam interpretar a magia do lugar, a teatralidade da paisagem, as texturas e os materiais, e um conceito que transporta consigo uma forte impressão de algo telúrico, primordial, mineral, saído das entranhas da terra.
Ao mesmo tempo, este edifício/matéria (aparentemente) bruta, remete para uma certa poética de Stonehenge; não o círculo sagrado das pedras (é mais um triângulo), mas esta especial linguagem pétrea do betão, como se fosse da idade da pedra – Stone Age –, como se habitasse nele a essência do xisto que por ali existe e onde se inscrevem as próprias gravuras pré-históricas. A relação entre construção e escavação, entre o edifício e a topografia do terreno, ou o contraste entre a massa mineral que emerge ou assenta no chão, e uma parte que parece dele levitar ou pairar sobre os abismos que descem até aos rios Côa e Douro…, tudo isso contribui para a tensão que ali é criada e para a intensa dramatização do lugar e da sua relação com a paisagem.
Esta nova presença – estranha e familiar, ao mesmo tempo –, presa a um cordão umbilical que é a estrada que lhe dá acesso, emerge na sua solidão de muralha ou atalaia no meio de socalcos abandonados, amendoeiras, oliveiras, figueiras, esteva, vinhas novas ou simplesmente terrenos escalvados destas terras secas e quase reduzidas aos seus ossos de xisto. Também isso aumenta a poética desta paisagem, as marcas das suas longínquas memórias e algo que é entendido, simultaneamente, como um artefacto que conserva um código genético do início dos tempos – geológicos ou humanos –, ao lado com as fracturas expostas das marcas recentes e interrompidas das grandes obras de engenharia hidroeléctrica.





Segundo andamento – expectativa e contradição
Este é o cenário forte que veio da dramatização em torno da descoberta das gravuras e da interrupção da barragem. Deste encontro de paixões só podia ter saído um gesto desmedido e uma expectativa posta no máximo. Entre discussões sobre produção de energia, património, arte, ciência, arqueologia, excepcionalidade, identidade, despovoamento, abandono, cosmopolitismo, tradição, turismo, etc., o certo é que este museu, ainda antes de ser projectado, construído e aberto ao público, corre o risco de colapsar perante o excesso, a diversidade e as contradições contidas nessas expectativas. A obra arquitectónica, se esvaziada de conteúdo e incapaz de corresponder às expectativas criadas, pode evoluir rapidamente para um estatuto de ruína para onde virá o trabalho laborioso e geométrico dos líquenes, se a química do betão lhes for favorável. Não será o caso.

Finale
Dito isto, proponho um conteúdo programático quase fadista:
Nem às paredes confesso
Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça
Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Eu sou sincera
Porque não quero
Dar-te um desgosto
[refrão:]
De quem eu gosto
nem às paredes confesso
E nem aposto
Que não gosto de ninguém
Podes rogar
Podes chorar
Podes sorrir também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso.
Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
que eu tanto espero.
Se gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo.
Música: Ferrer Trindade, Artur Ribeiro
Letra: Maximiano de Sousa
Intérprete: Amália Rodrigues
Vem tudo isto a propósito das gravuras. Ninguém grava paredes sem sentido. Não existe arte pela arte (o que quer que isso seja), nem é suposto saber-se alguma vez quem e porque é que fez o que fez e quis disso deixar registo perene semeado em pontos e trajectos pelos rios, pelas pedras, pelos caminhos e para quem por cá deambula.
Nem às paredes confesso, é uma… confissão radical de quem diz que não diz, dizendo que apenas se reserva a uma expectativa.
Faça-se, pois, um programa de largo espectro – como os antibióticos – que explique,
- desde a seriedade com que o fazem os cientistas, arqueólogos ou antropólogos da arte, da datação de gravuras, etc.,
- aos que se distraem a ler “amo-te Vanessa” escrito à pressa nos viadutos,
- aos que passam horas no facebook ou em qualquer parede electrónica ligada à Net (por onde todos passam, como os que passavam nos caminhos do vale do Côa) a ver mensagens e grafitos mais ou menos subliminares,
que não são necessários milhões de auroques em manada e a três dimensões a cavalgar sobre o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa, para que todos tenhamos uma profunda curiosidade e desejo de conhecimento sobre estes mistérios que nos impulsionam a confessar às paredes de forma mais ou menos artística. Neste tempo que é o nosso, pouco sabemos para quem escrevemos nas paredes, com quem partilhamos o quê e com que sentido. Entre quem deixa mensagens que só um outro singular é que percebe, e outros que têm a ilusão de supostamente escrever globalmente, para que todo o mundo entenda, ficam a quase maioria que vive na cacofonia comunicacional do presente e da opacidade da sociedade e do que a move.
Que o Côa se abra ao mundo e que mundo se abra ao Côa!
Álvaro Domingues
http://museologiaporto.ning.com/profile/alvaroantoniogomesdomingues
27 de Outubro 2009