MUSEUS E PÓS-MODERNIDADE Marta Anico Universidade Técnica de
Lisboa, ISCSP, Lisboa 2008. Recensão crítica de Margarida Lima de
Faria Aqui temos um livro português, editado em Portugal, que
reflecte sobre a temática da museologia, a partir dos instrumentos
de análise das ciências humanas (antropologia, sociologia, ciências
da comunicação, estudos culturais) com uma qualidade de abordagem,
e de escrita, e um rigor conceptual, de grande qualidade. Li-o com
um prazer especial porque arruma muito do meu próprio pensamento
sobre a instituição museu, e sobre o seu lugar nas sociedades
actuais, inserindo-a como eu própria sempre procurei inseri-la,
numa visão mais ampla das sociedades e culturas, dos seus espaços,
seus tempos e múltiplos modos de estar. Problematiza o museu como
objecto cultural numa dimensão crítica em que nada é fixo, tudo é
contingente. Tarefa difícil porque é sempre mais fácil, no processo
de análise de qualquer objecto, fixar parte das suas componentes e
problematizar apenas algumas. Marta Anico desafia todas em
simultâneo, caminha em todas as direcções. Esta abordagem múltipla
e forçosamente multidisciplinar é apresentada no capítulo de
revisão da literatura. Este primeiro momento do livro só por si
confere a esta obra o lugar de leitura obrigatória no estudo da
museologia, e de todas as áreas afins (das de componente mais
teórica às de componente mais prática). Bebendo de múltiplas
influências de quem calcorreou a melhor literatura disponível, e
recente, com postura madura, estudiosa e séria, Marta Anico escolhe
como perspectiva de análise a perspectiva dialógica, por ser a que
melhor lhe permite resgatar a cultura (e os museus) das noções que
a fixam a um espaço identificável, categorizável e “finalizável”.
Pelo contrário, admite a existência de zonas de fronteira, de
diálogos e negociações entre temporalidades e espacialidades
diversas. A autora afasta-se também das modalidades de análise que
se pretendem totalmente objectivas (positivistas) e das totalmente
subjectivas (poéticas) encontrando uma medida de interacção entre
ambas que abre para a inter-subjectividade através da qual a
dimensão social e individual da experiência forçosamente dialogam.
Museus pós-modernos? Scott Lash disse em “Sociology of
Postmodernism” (Routledge, 1991) que não são as sociedades no seu
todo que se podem considerar pós-modernas mas algumas das suas
emergentes manifestações culturais, que o autor caracteriza
sobretudo por uma alteração de paradigma, este definido a partir de
um novo regime de significação. Regimes de significação
pós-modernos e modernos convivem, segundo o autor, sendo que em
certos contextos urbanos e cosmopolitas os primeiros tendem a
tornar-se dominantes. Na definição de “pós-modernidade cultural”
que o autor apresenta na forma de um modelo de análise aplicável a
uma diversidade de objectos culturais, entram o campo da produção,
o campo da recepção ou consumo, assim como as instituições que os
enquadram e o modo como os seus significados “significam”, ou seja
o modo como são construídos e postos em circulação (numa relação
problemática entre a coisa em si e as suas representações). No
trabalho da autora, a apresentação da ideia de uma
“pós-modernidade” museal (ou pós-museu) deixa-nos um pouco carentes
de alguma sistematização da ordem do “vou utilizar este conceito
nestes termos para definir este objecto nas seguintes dimensões”,
que nos permita a cada momento perceber onde ele (o conceito) está,
de que modo está, e como dialoga com o que cronologicamente o
antecede, o de “modernidade”; finalmente em que situações um o
outro emergem como dominantes. Perde-se um pouco a ligação entre a
sua discussão teórica, rica em substância (enquadrada pelas noções
comuns às teorias da pós-modernidade como hibridismo, fragmentação,
sobreposição, cosmopolitismo) e o seu referente a Rede dos Museus
de Loures. Sente-se, no entanto, que há uma tentativa de encontrar
o lado “pós-moderno” deste objecto nos discursos dos informantes,
na relação com os públicos (numa perspectiva multi-cultural e por
essa via multi-discursiva), numa observação “multi-situada” dos
“lugares”. Deste esforço resulta uma escolha feliz de interpretação
da “poética” museal do concelho, de uma riqueza analítica e de um
detalhe que surpreendem e ensinam a olhar, de forma crítica, para
os museus e em particular para os seus discursos expositivos.
Finalmente esta procura da pós-modernidade na RML justifica ainda a
preferência de Marta Anico por uma análise qualitativa da
experiência dos seus públicos, incluindo nela a construção de redes
de contacto inter-institucionais e a existência de modos de expor
dirigidos a diferentes público-alvo. Quanto às metodologias
adoptadas, a autora assume-as como uma “ficção” numa atitude
auto-reflexiva, que provoca as ortodoxias vigentes, mas
profundamente coerente com a perspectiva em que baseia toda a sua
análise. O sujeito da análise (a própria) adquire por essa via, a
configuração de objecto. Este processo de des-diferenciação é (ele
sim) um bom exemplo de uma postura interpretativa “pós-moderna”,
auto-reflexiva criativa, ou criadora. Afigura-se por isso como uma
pedra no charco no positivismo classificatório, construtor de
hierarquias simbólicas (e de autoridades imaginadas) reinante no
mundo dos “nossos” museus e na “nossa” museologia. A descrição dos
rituais museológicos, performativos, que vão da recolha de objectos
(e com eles de informações e afectos) ao momento da inauguração dos
espaços expositivos, é original e particularmente estimulante.
Marta Anico escreve muitíssimo bem deixando que a sua inteligência
seja posta ao serviço de um texto construído sem grandes limitações
de pensamento e, sobretudo, livre das “gramáticas” a que a análise
museológica nos tem habituado. O formato de tese que transparece
nesta obra limitou-a, certamente. A negociação teoria-empirica não
foi forçosamente fácil. O estudo de caso é demasiado detalhado
ainda que o esforço de identificação de pós-modernidade, nos
meandros da sua desconstrução, o tenha animado, conferindo-lhe uma
expressão única. O grande ensinamento deste trabalho reside
precisamente nesse caminho. Um caminho que é antes de mais pessoal,
e por isso aberto, profundamente auto-reflexivo e meticuloso.
Esperamos mais. Precisamos de mais escrita desta qualidade, para
ultrapassarmos a limitação do nosso confinar a uma
produção/tradução estrangeira (e sobretudo anglófona). Porque, como
diz a autora, o processo de construção de significados “é permeado
por contextos discursivos mais vastos, nos quais circulam
convenções, discursos e símbolos” e, no seu posicionamento
relativo, encontramos também parte da experiência social e cultural
que nos define.